quarta-feira, julho 26


by jeanine lemos boggio
AGORA NA VERSÃO SURDA 2.0 SUPER LUXO

Tio, eu tive que virar espectadora de um crime grotesco. Eu juro que quando dormi àquela noite lá no "bunker" escuro e ensurdecedor, eu sonhei com o Senhor e matei um curral de gado cheio de doenças. Não, tio. O senhor não estava cercado de belas mulheres que lambiam os beiços no cheddar e depois lhe lambiam as pernas, tio, você estava numa fria tão fria, distante, mas o senhor estava lá como sempre, me esperando. Tio Vegas, você parecia mais velho, menos arisco e seu cabelo apresentava fios brancos, lembro claramente de o vir com um grande revólver prateado no bolso daquela bermuda de idoso branca que o senhor vestia. Lembra quando vimos juntos aquele filme do Jacques Tati no cinema Lumiére? O senhor estava fumando um grande charuto e incomodava as pessoas, eu ria porque era pequeno e achava que o senhor era sempre uma forma cômica de passar o tempo na minha pré-adolescência tão sem graça. Quanto nojo sentia de vê-lo abaixando as calças abruptamente para olhar para os decotes das moças nas ruas, o senhor fazia bolinhas de chicletes e e colava nos bancos, elas sentavam e depois o senhor se deleitava vendo-as tirar o chiclete bem no meio das bundas, lembro de meu Tio Vagon fazendo isso como um aspirador de pó, era muito devasso e soprava até fazer aquele barulho de pedreiro quando vê um rabo na rua. Ah! A Lei e a ordem? Desrespeitei e me dei mal, ser da máfia me tornou corruptível. Eu não ligo. Quanto suco branco naquele copo quando eu acordei! Era iogurte mesmo, eu não ia beber aquilo de forma alguma. Lembro de meu tio com uma camisa fresca francesa de seda, as gotas de suor no seu peito peludo que esfrega com o cabo da navalha pra se sentir revigorado emais macho que nunca. Lá estava ele, você? Eu sofri uma operação este final de semana, no céLebro, ando meio lento, lenta....vazou muita massa encefálica. Tio, quero que agora o senhor vingue-me. Me vingue daqueles paspalhos que me fizeram sofrer e não entenderam a complexidade e a riqueza de ter meu sangue brotando nas mãos deles. Ordinários, lavaremos nossas honras com sangue de catarradeiras de presidiários com sifilis se for o caso. Nas noites que estive acordada, pensava em práticas sexuais dantescas e momentos hediondos de viagens naufrágicas, livros escritos para serem doados e lidos em bibliotecas imensas, desenhos de dragões tatuados em corpos nus. Acordava e estava em Berlim comprando pretzels e depois dormia num banco numa estação em Viena. Ah! Laura, que saudades de seu molho de aspargos. A Laura, a Gazela....todas em Viena. Vou enfileirá-las, vou terminar este espetáculo aguado de palavras soltas e gestos mortais. Nada faz sentido? Só se for para vocês. Meu tio Vegas ficou ali parado com o revólver me olhando. Era inverno na praia européia e eu entrei com um menino sapeca na água gelada, a onda virava sorvetes e derrepente olhando de longe as ondas era um arco-iris gelado...

música pós-sófocles: wake up - arcade fire

4 comentários:

Aitel disse...

esse teu tio não é flor que se cheire, menina!

CARNE disse...

ele é meu alter ego, eu também não sou flor que se cheire, hehe

Frank Vegas disse...

Querida sobrinha,

Mais uma vez obrigado por esse conto. Você sabe como agradar o tio.
Por isso você é tão especial.

Beijos,
tio Frank

Anônimo disse...

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